terça-feira, 20 de abril de 2010

A FANTASIA DA AUTOSSUFICIÊNCIA

          É muito comum hoje em dia encontrar pessoas que se dizem autossuficientes, umas porque se acham expertos em diversos assuntos, outras porque não têm ideia da abrangência da própria ignorância e decidem aventurar-se pelo mundo do incógnito tido por manifesto e correto. É gozado como tanto a pretensão de conhecimento quanto a falta dele levam as pessoas para o mesmo caminho, neste caso, sentir-se autossuficientes.
          Autossuficiente é uma pessoa que “se basta a si mesma”, que só precisaria dela mesma para viver; em outras palavras, uma pessoa desconectada de qualquer outro ente deste mundo, coisa que constitui, no mínimo, um paradoxo. Sendo assim, autossuficiência parece ser uma ridícula fantasia, da mesma forma como a independência parece ser uma negação do outro. Em vida, a autossuficiência é uma espécie de antecipação da morte; depois da vida...; ah! Sabe-se lá o que viria a ser a autossuficiência, se é que depois da vida alguma coisa é.
          A dependência é nossa marca registrada; e pelo visto, nunca estaremos a sós e nunca nos bastaremos a nós mesmos. Nem o verbo se basta a si mesmo. Sempre é necessário um contexto para que a palavra seja. O que seria da palavra se não houvesse nada mais além dela? Nada! Ela mesma não seria. Nem Deus seria sozinho. Deus sozinho seria para quem..., em quem? Deus parece ser, ao que tudo indica (tudo mesmo, pelo menos até hoje), não mais que um artista que opera no grande anfiteatro que é o mundo dos humanos; e nós somos espectadores do nosso próprio teatro; amantes do probabilismo ideal. Eis aqui uma questão verdadeiramente humana, circunstancial, intelectual, de estado de ânimo: Deus.
          Até o pensamento tem que estar conectado a algo; caso contrário, não haveria pensamento. Pensamento sem palavra? Como corroboraríamos sua existência? Pode ser que haja técnicas modernas que deem conta disso. Mas Deus não nasceu hoje, convenhamos, e a sua complexidade deve ser resolvida de forma diferente.
          A solidão é um estado psicológico, algo que faz parte do mundo do “achismo” improvável. Quiçá o que as pessoas chamam de solidão sejam esses momentos em que gostariam estar a sós e não podem. Esta é uma questão tão abstrusa que chega a acabrunhar, torturar e dá uma sensação de mal estar. Seria isso a solidão..., uma idéia de carência, uma irrealidade que, paradoxalmente, expressa a insuficiência de si para consigo mesmo?
          A vida é uma conexão de coisas. Até quando desejamos estar a sós com nós mesmos necessitamos estar acompanhados, embora seja do silêncio, que não deixa de ser uma boa companhia nesses momentos de falta de chão, digamos assim. Ou estamos com o silêncio ou estamos com o barulho. A sós? Só na própria imaginação. Quando você achar que está só com seus pensamentos, abandonado em si mesmo, pergunte-se: os seus pensamentos são pensamentos de quê? Quando você encontrar a causa se convencerá de que não está realmente só, que está com seus pensamentos; mas somente depois de encontrar a causa, porque os pensamentos não seriam sem ela. A ideia de autossuficiência é, por tanto, falsa; é um refugio mental, uma interiorização da ignorância de seu próprio estado e das coisas que o acompanham.
          As coisas existem independentemente do pensamento de quem quer que seja; independentemente do estado mental de quem quer que seja, pelo menos quando não se trate de Deus, porque aqui as coisas se invertem. A dependência é uma realidade sem a qual não seríamos. Dependemos do outro a todo instante. Dependemos do ar, da luz, da água, dos políticos, das armas, dos pensamentos, das grades nas janelas e do silêncio; necessitamos do branco, do preto, do amarelo e do índio; necessitamos dos dicionários, principalmente deles. Não nos bastamos a nós mesmos. Do contrário, com quem nos comunicaríamos? Dependemos, para sobreviver, da boa vontade do outro que, por sua vez, necessita de algo para ser.
          Se você acha que é autossuficiente e, ainda assim, acredita em Deus, baita contradição o seu “achismo”! Talvez seja este um bom momento para repensar seus conceitos. Não se sinta mais que os demais; não tente impor sua opinião à força porque em algum momento você pode vir a ser forçado a aceitar outras opiniões. E pior que ser forçado a aceitar opiniões só mesmo a ilusão da autossuficiência e da vida eterna. Não menospreze os outros, porque o menosprezo é uma forma de autoeliminação. Dialogue em bom tom com as pessoas; seja flexível, porque a inflexibilidade é um sinal da ignorância da própria condição de dependente do outro. Vivemos neste mundo relações de eterna complementaridade; vivemos um atrelamento involuntário e quase irrefletido.
          A completude de cada sujeito não lhe é inata, vem de fora, e isso é um bom sinal de que a autossuficiência é a expressão da ignorância e da negação das coisas que constituem o ser humano. Mas não se ache diminuído por isso, porque a dependência não é uma questão de vontade, mas de essência; e não é só você que está nessa situação.
          Você pode ser rico ou pobre, preto ou amarelo, letrado ou ignorante, heterossexual ou homossexual com suas naturais variações; preconceituoso ou vítima de preconceito; você pode crer em Deus ou ser ateu, ser casado ou solteiro, político ou sem teto; quaisquer dessas coisas você pode ser, mas não menos dependente. Uma condição não elimina ou diminui a outra. O tetraplégico necessita de seu empurrãozinho para movimentar-se e você necessita dele para demonstrar sua solidariedade. A relação do homem com o mundo é de interdependência, não de suficiência.
Valdson Amorim

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